Olá pessoal,
Todos ouviram falar sobre a missão da NASA para a Lua. 🌝
Mas poucas pessoas conhecem o salto de conhecimento em Medicina e saúde dessa expedição em relação a Apollo, principalmente em relação à saúde dos astronautas e como isso pode afetá-los no curto e longo prazo.
Espero que gostem : )
Tempo de leitura : 5 minutos
💬 Em pauta
Na sexta-feira passada, às 20h07 (horário de Brasília), a cápsula Orion pousou no Pacífico com quatro astronautas a bordo.

Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen tinham acabado de completar a Artemis II.
Dez dias no espaço. Uma volta ao redor da Lua. O recorde de maior distância percorrida por seres humanos na história: 252.756 milhas da Terra, superando a marca da Apollo 13 em 1970.
Por 53 anos, tudo o que sabíamos sobre o que o espaço profundo faz com o corpo humano veio de algumas missões curtas, voadas por 24 homens.
Essa era acabou na sexta-feira passada.
Quando a Orion pousou, trouxe junto algo que nenhuma foto da Lua consegue superar, o primeiro conjunto de dados de saúde em espaço profundo coletado em mais de meio século.
E dessa vez, os dados foram pensados desde o início.
Na Apollo, a medicina era reativa…
Os astronautas eram examinados antes do vôo. Iam para a Lua. Eram examinados de novo quando voltavam. E torciam para encontrar o que deu errado (rs).
Só anos depois as consequências apareceram. Análises retrospectivas revelaram taxas elevadas de catarata entre os astronautas da Apollo, consistentes com a exposição à radiação cósmica fora da magnetosfera. Ninguém estava medindo esse dano em tempo real. Não porque a NASA não se importasse, mas porque as ferramentas simplesmente não existiam.
Tinha também a poeira lunar. Na época, parecia um incômodo simples. Astronautas reclamavam que irritava olhos e garganta, e que cheirava a pólvora queimada. Hoje sabemos que as partículas são irregulares, carregadas eletrostaticamente e pequenas o suficiente para penetrar no tecido pulmonar. Para tripulações que passem semanas na superfície, a poeira pode se tornar um risco ocupacional crônico.
A lição da Apollo foi que você não consegue proteger as tripulações de riscos que só descobre depois da missão.
Por isso, a Artemis II foi construída ao redor de uma ideia diferente: medir enquanto acontece.
A NASA classifica os riscos em cinco categorias, resumidas no acrônimo RIDGE:
→ Radiação (Radiation): fora da magnetosfera terrestre, os astronautas ficam expostos a raios cósmicos galácticos e partículas solares em níveis muito superiores aos da órbita mais baixa. A exposição à radiação no espaço pode equivaler a centenas de radiografias de tórax. 🩻 Os efeitos incluem danos ao DNA, aumento do risco de câncer e comprometimento do sistema imunológico. Na Artemis II, dosímetros pessoais e detectores de íons pesados monitoraram a radiação dentro e fora da cápsula em tempo real.
→ Isolamento (Isolation): quatro pessoas confinadas em um espaço do tamanho de uma van, sem contato físico com o mundo exterior. Em missões curtas o impacto é gerenciável, mas a NASA já sabe, por décadas de pesquisa em ambientes análogos como estações antárticas e submarinos, que a dinâmica de pequenos grupos sob confinamento pode se deteriorar rapidamente. Alterações de humor, conflitos interpessoais e fadiga de decisão são riscos reais.
→ Distância da Terra (Distance): quanto mais longe da Terra, maior o atraso na comunicação e menor a possibilidade de resgate em caso de emergência médica. Na Artemis II, os astronautas estiveram a mais de 250 mil milhas de casa. Em uma futura missão a Marte, esse número salta para dezenas de milhões. Qualquer emergência médica precisará ser resolvida a bordo.

→ Gravidade (Gravity): a microgravidade é o fator com efeitos mais imediatos e documentados. Perda muscular, perda óssea, redistribuição de fluidos, alterações cardiovasculares e desregulação do sistema vestibular começam nos primeiros dias de voo.
→ Ambiente (Environment): o interior da cápsula tem níveis elevados de CO₂, ruído constante dos sistemas de suporte à vida, iluminação artificial e ciclos de sono alterados. O exterior é ainda mais hostil: vácuo, temperaturas extremas e micropartículas. Na reentrada, a Orion atingiu temperaturas superiores a 2.760°C na superfície externa.
Para cada um desses riscos, a Artemis II levou um dispositivo de monitoramento. Não como acessório. Como prioridade de missão.

Nos pulsos dos astronautas, monitores semelhantes a relógios rastrearam movimentos, qualidade do sono e padrões de comportamento em tempo real durante todo o vôo, (lembrando bastante o dispositivo Whoop né?). Os dados serão comparados com avaliações feitas antes e depois da missão para mapear como o espaço profundo afeta cognição, sono e dinâmica de grupo.

Para medir a saúde imunológica, os astronautas coletaram a própria saliva antes, durante e depois da missão. Mas a Orion não tem refrigeração. A solução foi engenhosa: papel especial guardado em cadernos de bolso, onde a saliva era depositada e preservada sem necessidade de resfriamento.
Com essas amostras, pesquisadores vão rastrear biomarcadores de estresse imunológico e verificar se vírus dormentes, como os que causam catapora e herpes-zóster, foram reativados no espaço. Algo que já foi observado em astronautas da Estação Espacial Internacional.
Para a radiação, a Orion carregou seis sensores fixos, e cada astronauta manteve um dosímetro pessoal no bolso. Em caso de erupção solar durante a missão, os sensores emitiriam alertas em tempo real.
E talvez o dispositivo mais surpreendente: antes do lançamento, cada astronauta doou células para a criação de "avatares", que são chips de células-tronco, do tamanho de um pendrive, feitos com tecido de medula óssea, que simulam como o corpo de cada indivíduo reage à radiação e à microgravidade. Eles viajaram ao lado da tripulação, expostos ao mesmo ambiente, e agora serão comparados com amostras idênticas que ficaram na Terra.

O objetivo, segundo Lisa Carnell, diretora da Divisão de Ciências Biológicas e Físicas da NASA, é entender que cada corpo responde de forma diferente ao espaço profundo. Alguém pode ser mais resistente à radiação. Outro, mais vulnerável. Com esses dados, a NASA quer montar kits médicos personalizados para cada astronauta em missões futuras.
A visão de longo prazo é enviar os avatares antes da tripulação, em missões futuras. Testar a resposta biológica individual antes do humano embarcar.
Mas a coleta de dados não parou no pouso.
Dentro de uma a duas horas após a amerissagem, os quatro astronautas foram submetidos a um percurso de obstáculos. Subir escadas. Levantar objetos. Simular uma evacuação de emergência da cápsula.
Depois de 10 dias em microgravidade, o corpo não responde como antes. O ouvido interno, responsável pelo equilíbrio, é um dos primeiros sistemas a ser afetado. A recuperação leva de três a cinco dias.
O teste não era sobre resistência. Era sobre capacidade funcional imediata. Porque em missões futuras à superfície lunar, não haverá equipe de resgate do lado de fora do módulo. O astronauta vai precisar sair, se mover e trabalhar sozinho, com um corpo que acabou de passar dias ou semanas em gravidade zero.
Os efeitos físicos da microgravidade, mesmo em 10 dias, já são mensuráveis:
→ Sistema cardiovascular: o coração se adapta à demanda menor, o volume sanguíneo cai e o risco de tontura ou desmaio ao ficar de pé aumenta. A tripulação testou roupas de compressão nos membros inferiores para manter a pressão arterial na reentrada.
→ Músculos: perda de até 1% por dia nos músculos do tronco e pernas nas primeiras semanas. Em missões de 6 meses, a queda pode chegar a 20%-30%.
→ Ossos: perda de 1% a 2% de densidade por mês nos ossos de sustentação. Equivale a um ano de osteoporose. Recuperação completa pode levar 2 a 3 anos.
A Artemis II é a primeira missão além da órbita terrestre a participar do Spaceflight Standard Measures, um estudo que coleta dados padronizados de saúde desde 2018. Os astronautas começaram a fornecer amostras seis meses antes do lançamento. E continuarão sendo avaliados por meses após o retorno.
Meio século depois, a medicina espacial finalmente tem as ferramentas para fazer as perguntas certas.
A Apollo provou que humanos podem sobreviver ao espaço profundo.
A Artemis II começou o trabalho mais difícil: descobrir como mantê-los saudáveis lá.
Os quatro astronautas já estão em Houston, reunidos com suas famílias.
Seus corpos estão se readaptando à gravidade.
Seus dados estão apenas começando a ser analisados.
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Abraço!
Thiago Liguori



