Olá pessoal,

A Oncoclínicas valia R$ 10 bilhões no IPO. Hoje luta para não dar calote.

Essa é, provavelmente, a história mais dramática do setor de saúde brasileiro nos últimos anos. Resolvi mergulhar nos números para entender o que aconteceu.

Boa leitura! : )

Tempo de leitura : 5 minutos

💬 Em pauta

A tese da Oncoclínicas era daquelas que parecia impossível dar errado.

A população envelhece. Os casos de câncer aumentam. O mercado privado de oncologia no Brasil vale mais de R$ 40 bilhões. E a líder absoluta tinha menos de 5% de market share.

Com essa narrativa, a empresa abriu capital em agosto de 2021, levantou R$ 1,8 bilhão e saiu comprando tudo que via pela frente. Mais de 40 aquisições em cinco anos. De 69 unidades para mais de 143. Presença em todas as regiões do país.

E os números entregaram. Por um tempo.

Um outro ativo importante era o seu preço competitivo por sessão de quimio.

A Oncoclínicas faz cerca de 700 mil infusões de quimioterapia por ano e cobra R$ 9,7 mil por procedimento. Já a Rede D’Or, a segunda maior, faz 7,2 mil infusões por ano e cobra R$ 14,7 mil cada.

Entre 2021 e 2023, a fase de ouro:

→ Receita saltou de R$ 2,7 bilhões para R$ 5,5 bilhões
→ EBITDA passou de R$ 481 milhões para R$ 1,07 bilhão
→ Lucro líquido recorde de R$ 313 milhões em 2023

A margem EBITDA bateu 19,6%, os centros de terapia cresciam com margens superiores, e a empresa emplacou seis trimestres consecutivos de lucro. O mercado aplaudiu de pé.

Mas por trás dos resultados, uma bomba-relógio estava sendo montada.

Os primeiros sinais de alerta…

Os indicadores subjacentes já sinalizavam fragilidade desde meados de 2024. E o primeiro sinal veio pelo caixa.

A empresa queimou R$ 622 milhões em 12 meses (segundo cálculos do Banco Safra). As glosas das operadoras subiram. O prazo de recebíveis saltou para 112 dias. A margem EBITDA começou a comprimir trimestre após trimestre.

E enquanto a receita ainda crescia a dois dígitos, os custos e despesas operacionais cresciam mais rápido.

Resumo da deterioração:

→ Lucro anual: de R$ 313M (2023) para R$ -717M (2024)
→ Alavancagem: de 2,5x para 3,9x
→ Queima de caixa em 12 meses: R$ 622 milhões

Começou uma operação forte de negociação com credores 👇

Mas o problema não era só operacional.

O caso Banco Master…

Em maio de 2024, o Banco Master de Daniel Vorcaro virou acionista relevante da Oncoclínicas com cerca de 15% da empresa. Ao mesmo tempo, a Oncoclínicas mantinha quase R$ 500 milhões aplicados em CDBs do próprio Master.

Isso só se tornou público em outubro de 2025, quando a empresa tentou renegociar os valores.

Um mês depois, o Banco Central liquidou o Master.

Resultado: perda potencial de R$ 230 milhões, R$ 494 milhões em CDBs classificados como "caixa restrito" pela Fitch, e uma crise de governança que afastou investidores de vez.

Contratos fechados acima do mercado. Aplicação de caixa em CDBs de acionista relevante. Falta de transparência. A confiança evaporou.

O 4T24: o trimestre que mudou tudo

A empresa revisou as projeções de aquisições passadas e reconheceu que pagou caro demais.

Os números do quarto trimestre de 2024:

→ Prejuízo de R$ 759 milhões (vs. lucro de R$ 87M no 4T23)
→ EBITDA negativo em R$ 576 milhões
→ Custos dos serviços: R$ 1,1 bilhão só no trimestre

A Fitch protagonizou uma sequência dramática de rebaixamentos: de AA- para BBB em setembro de 2025, e depois direto para CCC- em fevereiro de 2026. De grau de investimento para risco de quebra iminente, em meses.

A ação que estreou a R$ 19,75 no IPO passou a valer R$ 2,50. Queda de 87%.

A dança das cadeiras…

Pressionada por acionistas (especialmente a gestora Latache, com 14,6% do capital), a Oncoclínicas iniciou uma reformulação profunda:

Em novembro de 2025, fez aumento de capital de R$ 1,4 bilhão (conversão de dívida + subscrição).

Em janeiro de 2026, a Latache elegeu a maioria do conselho. David Castelblanco foi destituído.

A nova CFO é Camille Loyo Faria, a mesma executiva que liderou a reestruturação financeira da Americanas.

Em fevereiro de 2026, Bruno Ferrari renunciou ao cargo de CEO, sob pressão dos investidores.

Em março de 2026, Carlos Gil Moreira Ferreira, oncologista do INCA e diretor médico da empresa desde 2018, assumiu como CEO interino.

A estratégia declarada: "back to basics". Vender hospitais. Sair da Arábia Saudita. Focar exclusivamente nas clínicas de oncologia ambulatorial. Priorizar geração de caixa acima de tudo.

Mas a crise já mostra sinais de contágio na operação: médicos buscando concorrentes (principalmente Rede D'Or), revisão da remuneração médica, e fornecedores com cautela crescente.

O resgate da Porto Seguro…

Na última sexta-feira (13 de março), a Porto Seguro e a Oncoclínicas assinaram um memorando de entendimentos para um investimento de R$ 1 bilhão.

A estrutura proposta:

→ R$ 500 milhões em equity (Porto ficaria com 33% do capital e 66% dos votos)
→ R$ 500 milhões em debêntures conversíveis
→ Oncoclínicas separaria suas ~200 clínicas em uma subsidiária dedicada
→ Hospitais e operação na Arábia Saudita ficariam de fora

A lógica da Porto é direta: ela já paga R$ 500 milhões por ano à Oncoclínicas pelo tratamento de seus segurados. E a rede faz 700 mil infusões de quimioterapia por ano a R$ 9,7 mil cada, enquanto a Rede D'Or cobra R$ 14,7 mil pelo mesmo procedimento.

Mas o acordo depende de duas condições nada triviais: diligência satisfatória e um acordo de dívida com os credores.

Com dívida bruta de R$ 4,8 bilhões e alavancagem de mais de 4x, convencer os credores não será simples.

O que a história da Oncoclínicas ensina…

Para quem trabalha com saúde, essa história vai muito além do mercado financeiro. Ela expõe padrões que se repetem em empresas de saúde que crescem rápido:

Tese forte não compensa execução financeira frágil. O mercado de oncologia continua crescendo. A demanda não caiu. O problema foi inteiramente de gestão.

Crescimento via aquisição agressiva exige disciplina que poucos mantêm. Mais de 40 aquisições em cinco anos. Muitas geraram dívida depois, sinalizando que se pagou mais do que valia.

Governança não é "nice to have". A relação com o Banco Master, os CDBs, os contratos acima do mercado... tudo isso poderia ter sido evitado com um conselho atuante e independente.

Diversificação além do core é perigosa em momento de alavancagem. Centros de terapia, hospitalares e operação na Arábia Saudita criaram complexidade justamente quando a empresa precisava fazer o básico bem feito.

A maior rede de oncologia da América Latina não está em crise por falta de pacientes.

Está em crise por erros na gestão.

A pergunta agora é se a Porto Seguro será o desfibrilador que salva a empresa... ou se já é tarde demais.

O que você acha do cenário atual da Oncoclínicas?

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Domingo que vem tem mais,

Abraço!

Thiago Liguori

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